26/05/2010
Primeiro dia livre de impostos
Fonte:http://www.ohoje.com.br/economia/26-05-2010-primeiro-dia-livre-de-impostos/
De: Vinicius Mamede
Os companheiros de obra Pablo Pilicie, de 41 anos, e Lindauro Matos, 28, tiraram um “peso das costas”, assim como todos os brasileiros. Os primeiros cinco meses de trabalho do ano, destinados exclusivamente ao pagamento de impostos, já passaram e, daqui para frente, o dinheiro suado com o sobe e desce de materiais para a construção de um edifício, no Jardim Goiás, em Goiânia, deve ser revertido em benfeitorias para as famílias dos dois trabalhadores.
Pode até parecer exagero ou, quem sabe, prática comum ao trabalho escravo. Porém, com algumas mudanças no desenrolar das atividades, o relato dos pedreiros serve também para descrever as finanças de qualquer outro trabalhador do País. E para comemorar a “soltura desses grilhões”, o dia de ontem foi marcado por diversas manifestações por todo o Brasil, celebrando o Dia da Liberdade de Impostos.
Ao fim de exatos 145 dias, a partir do início de cada ano, a população paga toda a parte de seus rendimentos destinados a cobrir a alta carga tributária do País. “Uma das maiores do mundo”, diz o economista e pesquisador das Faculdades Alves Faria (Alfa), Aurélio Troncoso. Dado ainda mais preocupante para ele é que a utilização dessa verba nem sempre resulta em benfeitorias para a população. Apesar disso, são criadas regularmente novas taxas sobre produtos e serviços.
Troncoso cita que, não fugindo do “comum” a outros mandatos, desde o início do governo Lula pelo menos 45 novos impostos foram criados. A rigor, eles surgem timidamente e como taxas passageiras. Porém, logo se tornam tributos indispensáveis à manutenção de todo o sistema. Exemplo da extinta Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF), que, com a impossibilidade da prorrogação e a necessidade do dinheiro, trouxe elevações ao Imposto sobre Operações Financeiras (IOF).
O peso dos tributos sobre o consumidor final é tamanho que o especialista acredita que o consumo, ao menos no Brasil, não é freado pela incidência de juros e seus aumentos, mas pela alta carga de impostos. Para tanto, Troncoso compara os períodos “pré-IPI” e durante a redução do Imposto sobre Produtos Industrializados de veículos. “O consumo sofreu um ‘boom’ durante o período de reduções, mesmo sem mudanças expressivas nas taxas de juros. E agora, com o fim da medida, já percebemos reduções consideráveis no consumo de automóveis”, disse.
CRESCIMENTO NAS VENDAS
O aumento nas vendas que naquela época – não muito distante – foi possibilitado pela isenção não maior que 7% do valor total dos carros, imagine então se a redução contemplasse todos os 43,63% do valor total dos automóveis destinados ao pagamento dos mais variados tributos. Se assim fosse, o pedreiro Pablo Pilicie conta que já teria um carro. E se, como em um sonho, as isenções alcançassem todos os produtos, os 800 reais ganhos pelas 12 horas diárias levantando paredes em obras seriam suficientes, quem sabe, a levar vida luxuosa.
Diferentemente do sonho, a dura realidade impede a aquisição do carro, mas não impede o consumo do recordista em tributações: o cigarro. O vício de Pablo começou há quase dez anos, do amigo Lindauro, apenas três. Porém, surpresos com a tributação imposta ao tabaco (81,68%), eles estão até pensando em parar de fumar: bom para a saúde dos pedreiros e para o bolso deles.